segunda-feira, 20 de agosto de 2007

DUAS DESPEDIDAS

DUAS DESPEDIDAS

Rainha e seus sete cães


Dona Rainha morava na Avenida Doutor Arnaldo bem próximo da entrada da estação de metrô, numa barraca de lonas, plásticos e madeira apoiada no muro do cemitério, dividida com uma família de sete cães.

A tal família começou com uma fêmea, Valentina, quando se “encontrou” com um cão malhado branco e preto que antes morava numa oficina mecânica ali perto.

Lá eles sobreviviam da venda de bolachas, leite e café da manhã aos apressados passantes e doações de pessoas consternadas com a situação, provavelmente em grande parte cachorreiros. Minha esposa e eu nos incluímos nesse grupo.

Não ajudamos tanto quanto deveríamos – a gente sempre acha que podia ter feito mais – e nos comovia vê-los ali, sob aquele amontoado de restos sob sol escaldante, chuvas torrenciais e o intenso frio que fez nesse ano.

Caminho de minha esposa ao trabalho, ela sempre me trazia notícias do grupo. Os filhotes cresceram, engordaram, estavam usando alguma roupa que levamos...

De repente, indo para um plantão de domingo, cadê todos eles? Nenhum sinal da barraca, das panelas, dos caixotes, dos filhotes.

Onde estariam? Morando em alguma casa abandonada? Algum sítio (onde mais aceitariam sete cães)? Debaixo de algum viaduto dessa cidade? De outra?

Passou uma ou duas semanas até que no domingo, zapeando entre os canais da TV, vimos a família feliz: tinham conseguido, através do programa Late Show, uma passagem – para todos – ao Maranhão. Dona Rainha voltou a morar com a mãe, levando incondicionalmente todos os seus grandes amigos. Sim: assistindo ao programa vimos que ela, ao saber que ganharia uma passagem de volta à sua terra natal disse que não iria de jeito nenhum sem seus companheiros. Conseguiu.

Foi nossa chance de nos despedir, pela TV, dela e de seus cães. Boa sorte dona Rainha.


Negão

Cães se conhecem uns aos outros e não sabem seus nomes. Acho bom mas, para contar essa outra estória, vamos dizer que ele se chamava Negão.

Quando eu tinha restrições de horários impostas pelo trabalho levava minhas cadelas para passear na praça próxima de casa à noite, após o expediente.

A primeira vez que vi Negão fiquei receoso: grande, magro, sentado num canto escuro da praça, meio descabelado e olhos amarelados logo me fez lembrar aquelas cenas de filmes de terror em que os olhos de alguma fera brilham no escuro da noite.

Ele se aproximou hesitante, não veio diretamente a nós, circundando o que podia ser um invasor hostil. Fiquei preocupado, pois ele poderia realmente se sentir ameaçado (por uma ferocíssima ShihTzu de lacinhos e uma Schnauzer com a personalidade do Garfield).

Estávamos “estudando” a situação, olhos fixos um no outro apesar de já ter lido que contato visual pode ser interpretado como agressão. Se é verdade, ele que ficasse com medo de mim.

Curiosas e solícitas demais, sem nenhuma noção de perigo, as duas correram para conhecê-lo. Percebi que ele ficou um tanto incomodado, como que com medo delas. Caminhou em minha direção, fiquei firme e, de repente, ele encostou a cabeça em minha perna (quase em minha cintura) pedindo um afago...

Continuei encontrando Negão por diversas vezes, inclusive depois que ele “se associou” a um morador de rua. Tomava conta dos apetrechos do homem enquanto ele ia comprar pinga e salame no bar da esquina.

Brincalhão, corria pela praça solto, livre, sem horários nem obrigações. Ambos dormiam no coreto, mas Negão tomava seu banho de sol diário deitado entre os canteiros floridos. Pena nunca ter me ocorrido bater uma foto com o celular. Acho que ainda não me acostumei: tirar fotos com o telefone...

Algumas vezes levei ração, mas ele ignorava. Estava mais acostumado a “comida de verdade”, restos que o sem-teto lhe dava.

Uma vez o vi sozinho, do outro lado da Avenida Matarazzo, muito movimentada. Ele parecia estar querendo atravessá-la, mas estava difícil. Estacionei o carro, fui resgatá-lo, acompanhando-o a pé na travessia da avenida e deixei-o na praça, fechando o portão.

Hoje, novamente na tal praça para o passeio diário, agora sem limitações de horário, encontro o morador de rua arrastando um pesado cobertor. Era Negão ali, sem um pedaço de seu flanco direito.

Deve ter sido atropelado, mas o tal senhor insistiu em dizer que foi maldade de alguém, que aquilo parecia coisa feita com facão, que já haviam dito que iam matá-lo pois ele havia “encrespado” com alguns cães maiores, com donos, que também freqüentam a praça.

Nunca saberemos.

Adeus Negão.

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