Estória 1
Nos cafundós da Ásia, comerciantes encontraram filhotes de tigres abandonados numa estrada em meio a floresta. Feridos, com fome e sede, sua mãe provavelmente teria sido caçada e morta dias antes. Sem saber ao certo o que fazer com eles, resolveram levá-los a um templo budista próximo de onde estavam. O monge responsável pelo templo aceitou-os e cuidou deles como bebês.
A notícia não demorou a se espalhar e em pouco tempo diversas pessoas começaram a encaminhar animais abandonados para o templo. O monge aceitou-os todos e continua aceitando até hoje. Existem dificuldades, obviamente. Tigres adultos comem muito mais que os monges do templo. Além disso, o dia-a-dia mudou drasticamente, pois agora além de seus afazeres normais, os monges têm de tratar, alimentar, dar banho e até brincar um pouco com os tigres, porcos, javalis, veados, pavões, galinhas e outros animais tipicamente asiáticos dos quais nem me lembro o nome.
Eles contam com a ajuda dos próprios comerciantes e aldeões das redondezas, que doam alimentos, remédios e às vezes alguma ajuda financeira. Os tigres andam soltos pelo templo, assim como todos os outros animais, em convivência pacífica. Só um animal recém-chegado fica um tempo nas jaulas até que se acostume com seus novos companheiros e possa ser solto sem causar estragos.
Estória 2
Em Serra Leoa, África, o indiano Pala conseguiu emprego como tratador de chimpanzés, não sei ao certo se num pequeno zôo ou clínica. Lá trabalham, além dele, sua esposa, seu filho de uns dez anos e uma voluntária japonesa.
Ao recolher uma chimpanzé albina, toda branca e com um olho azul e outro castanho, chamou a atenção da imprensa, associações de proteção animal, do governo local e acabou recebendo um grande sítio para cuidar dos primatas.
A pequena chimpanzé albina não teria sobrevivido na selva pois apresentava especial sensibilidade ao Sol, além do que sua cor branca chamava muita atenção dos predadores.
Pala vive com sua família e os mais de 50 chimpanzés no tal sítio que, na verdade, é um trecho de selva – bastante grande – cercado. Volta e meia chegam novos primatas, apreendidos do tráfico internacional de animais ou encontrados doentes e abandonados na mata, pois às vezes se perdem dos bandos por ação dos caçadores.
Com o convívio na clínica do sítio, que virou uma reserva, os chimpanzés começam a aprender a viver só com os humanos e uma das funções de Pala e reintroduzí-los em sua comunidade de primatas. Com isso, chegou a aprender os sons e sinais típicos dos chimpanzés para poder ensinar aos mais jovens como se comportarem novamente como macacos, respeitando sua natureza.
A nossa estória
Acordamos ao menos cinco vezes por semana de sobressalto com o despertador, numa cidade que está entre as mais poluídas do planeta. Comemos qualquer coisa rapidamente e corremos para o trabalho, enfrentando o trânsito caótico, grosserias, congestionamentos, alagamentos. À noite, tudo se repete de volta pra casa. Já no sofá, exauridos pelas cobranças, pressões e estresse, nos deixamos levar catarquicamente pelas imagens da TV, para a qual apenas olhamos sem mover músculo nem neurônios.
Mesmo morando em apartamentos, nossas portas são devidamente trancadas e o prédio todo monitorado com câmeras e cercado eletricamente devido à violência e perigos lá fora.
No trabalho, qualquer que seja, sempre temos de engolir alguns sapos. Existem trabalhos muito dignos, como por exemplo, cuidar de crianças numa UTI Neonatal. Deve ser como presenciar um verdadeiro milagre ver um recém-nascido de 500g sobreviver e crescer graças aos seus cuidados. Mas, em sua grande maioria, os “trabalhos” não são tão mágicos assim. Em geral, na sociedade de serviços, em plena era da informação e conhecimento pessoas passam dias, semanas, meses, anos diante de um teclado e monitor.
Muita coisa acontece através dos comandos e trocas de mensagens pelas máquinas que controlam. É daí, microscopicamente, que a economia se alimenta e faz a roda do capital girar em prol da democracia e do “way of life”, mas suas relações com a vida são assim, frias, distantes, separadas de tudo por centenas de quilômetros de fios, cabos, carpete, ar-condicionado.
Imagine o monge do templo dos tigres ou Pala em sua reserva de primatas.
Com certeza você vai pensar algo como “Nossa, que desprendimento o deles, heim?! Viver no meio do nada, só cuidando de bichos...” ou que eles moram em lugares exóticos e, desse modo, só poderiam ter uma vida exótica.
Será que não somos nós os “exóticos”, de tão longe que fomos com nosso estilo de vida?
Ficamos enjaulados em casa ou dias ensolarados inteiros nos escritórios e achamos tudo "normal"...
Luís Henrique